ENTRE UM BOLO E A CORRUPÇÃO
- 3 de jun. de 2020
- 6 min de leitura

O que acontece entre um bolo e a corrupção? O que um bolo tem a ver com ética, moral e compliance?
Lendo uma publicação do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade, “Formulação e Implantação de Código de Ética em empresas – Reflexões e Sugestões”, um trecho me chamou a atenção: “...as pessoas não têm muita consciência de que seu comportamento pode não estar sendo o mais adequado. ”
Já lemos, ou ouvimos falar muito de ética, moral e agora falamos em Compliance ( termo inglês que traduzido para o português significa Integridade).
Ética é um termo filosófico que estuda concepções acerca da vida, do universo do ser humano e do seu destino. Está relacionado a escolher ou tomar, esta ou aquela atitude diante de uma consciência pessoal do que é certo ou errado. Sendo assim, entendo que envolva tomar decisões considerando o que cada um construiu para si de certo ou errado diante a sua própria história e do meio em que vive.
Já a Moral é expressão do que é aceitável diante dos costumes e valores praticados pela sociedade em que o indivíduo participa. Ou seja, é escolher tomar uma ou outra atitude diante daquilo que a sociedade constituiu como sendo aceitável ou não. Para dar suporte a esses conceitos temos leis, normas, decretos e religião, sob os quais somos julgados e redimidos ou condenados.
Tecnicamente, Compliance é o dever das empresas de promover uma cultura organizacional que estimule a conduta ética e um compromisso com o cumprimento da lei, conforme a definição do U.S. Federal Sentencing Guidelines Manual (Manual do Departamento de Justiça Americano).
Eu particularmente acredito que o Compliance veio para unir os dois conceitos. Veio para que haja uma interação de fato sobre o que é ética e o que é moral. Eu me atrevo a dizer que Compliance, ou Integridade, é fazer o certo...
Mesmo quando ninguém está te vendo.
Mesmo quando não se leva vantagem.
Mesmo quando você não vai ganhar N’s curtidas nas redes sociais.
Mesmo quando essa atitude não vai te tornar alguém mais popular, por escolher fazer o que é certo.
Aliás, fazer certo deveria ser algo tão natural que não mereceria ser notícia. Faz parecer que fazer o bem, ou o certo, é sair do padrão? Pode isso?
Tem todo o meu respeito, mas um trabalhador que encontra um envelope cheio de dinheiro e o devolve ao dono não deveria ser notícia nacional. Se fosse algo natural, a notícia não geraria audiência.
Nossa motivação pode ser fazer o certo, ou o bem, não simplesmente porque você pode ser julgado e condenado se não o fizer, mas porque somos todos responsáveis por uma mudança de comportamento que envolve sim fazer o certo, mas que também está relacionado a uma mudança de cultura, uma mudança de Mindset (programação mental, um padrão na forma de pensar que promova novas possibilidades).
Se pensamos: “Os pobres sempre serão injustiçados”, talvez seja verdade em especial se continuarmos sempre pensando que isto é motivo para não devolver o dinheiro que a operadora de caixa te passou a mais no troco. Ela também é uma trabalhadora que vai pagar a diferença de caixa no final do dia.
Se nos justificamos dizendo que os políticos sempre tiram o que é nosso, não se assuste, o carinha que não devolveu o troco excedente para a operadora de caixa acabou de agir como um político, com alguém que está no mesmo barco que ele (ou talvez até num bote furado e cheio de agua).
Pode ser que esse político, seja filho de pais que não devolvia o troco a mais. Que contava vantagem de ter recebido o dinheiro e não ter devolvido. Que furava a fila. Que trapaceava no jogo e hoje acha extremamente normal desviar a verba do lanche do seu filho que estuda na escola pública, para dividir o dinheiro em cuecas, meias ou esconder em apartamentos.
Meu foco aqui não a política em si. Apenas quis trazer exemplos comuns a todos os seguidores. Também não quero generalizar. Existem bons políticos e a estes, o meu respeito.
Se seu comportamento é adequado tudo bem, esta reflexão pode não ser para você. Ou quem sabe ainda seja. Não se sinta ofendido, mas quero te convidar a analisar os detalhes. Te convido a continuar lendo!
Mas se “seu comportamento pode não estar sendo o mais adequado”, que futuro você vê para o seu filho, para o meu filho? Para a nossa nação? Teremos filhos pobres e injustiçados? Ou, filhos corruptos? Existem outras opções.
Tem ou não tem um lado da balança pesando mais do que o outro?
E o que temos feito para equilibrar está balança? Faz sentido dizer que não escolher, não decidir também é escolher e é decidir? Que existe bem e mal, luz e sombras, Luke Skywalker e Darth Vander? Rs.
Se existe um muro que separa um lado do outro, pode ter certeza de que alguém o construiu e o tal muro pertence a alguém. E se você não sabe de quem é o muro pode ser que num determinado momento você se veja convidado a responder pelas decisões que tomaram por você.
Há uma história cristã que conta que o bem insiste em chamar quem está em cima do muro para descer para o seu lado e que o mal não te convida a descer porque foi ele quem construiu o muro, a dúvida, a discórdia, o conflito, a imparcialidade (no sentido do que não toma partido) foi o mal.
Aproveite a oportunidade e reflita agora. Eu também estou refletindo enquanto escrevo. Igualdade é harmonia, é temperança, é a busca constante pelo equilíbrio, certo? Moral, ética e integridade é igualdade de direitos em prol do bem-estar comum.
Então vamos ao bolo...
Eu sou a irmã mais velha de quatro irmãos. Meu pai tinha por costume (talvez uma habito passado a ele pelos pais dele) dar doces, bolachas, bolos para que eu dividisse entre os irmãos. E eu uma criança ávida por suprir minhas próprias necessidades, rs, dividia sempre na mesma proporção (SQN). A maior parte para mim e os outros três pedaços ou partes iguais para os outros três. Eu, no auge da minha superioridade e abusando dos plenos poderes de primogênita, a mim concedida pela mais pura sorte achava esse comportamento completamente justo.
Certo dia, meu pai como que induzido por Deus, me testou. Pediu novamente que eu dividisse um bolo entre os irmãos e eu dividi da mesma forma, porém quando eu fui pegar meu pedaço, na proporção do meu auto merecimento (injusto, é claro), ele segurou a minha mão e olhando nos meus olhos disse desta vez os outros vão escolher primeiro.
É claro que eu fiquei com o menor pedaço, mas o recado foi claro. Tanto para mim quanto para os meus irmãos, que até aquele dia sofriam as consequências de uma corrupção clara do meu comportamento inadequado. Foi então que eu, mais que entendi, eu aprendi que “ O meu direito termina, onde começo o direito do outro”.
Aristóteles disse (sim, o filosofo): “A virtude moral é uma consequência do hábito. Nós nos tornamos o que fazemos repetidamente. Ou seja, nós nos tornamos justos ao praticarmos atos justos, controlados ao praticarmos atos de autocontrole, corajoso ao praticarmos atos de bravura”.
Cada um de nós somos um agente provedor de justiça, não importa o ambiente. Se dentro de casa, na rua, no trabalho, na mídia, na igreja, no salão, seja qual for o papel que você esteja desenvolvendo ou cenário que você, somo todos provedores de mudança.
Que hábito você tem praticado em sua vida? Ele te constrói? Ou te destrói? Ele contribui com o coletivo ou é um desserviço à sociedade, à sua comunidade, à sua escola, à sua faculdade, ao seu trabalho? E em relação a sua família, constrói ou destrói? O momento que estamos vivendo agora é um momento propício para contribuir com o bem comum ou, justifica a destruição coletiva em prol do meu próprio ego?
Para gerar uma nova habilidade, é necessário persistir na repetição de um novo comportamento até que ele se torne natural. Mesmo quando tropeçar, levante e comece de novo. Feio é ficar no chão.
A minha história, essa da divisão do bolo, não me transformou imediatamente numa pessoa justa, claro que não. Mas se eu com mais de 40 anos ainda me lembro dela é sinal de que um ato de justiça produz mais efeitos do que normas escritas. Busco como qualquer pessoa ser justa todos os dias, um pouquinho que seja, em pequenas coisas, todos os dias.
“ O caráter é o produto de uma série de atos dos quais se é o princípio. ” Aristóteles.
Que possamos ser exemplos ao praticarmos a nossa própria série de atos que vão formar o nosso caráter e o daqueles que nos têm como referência.
Sintamo-nos desafiados a um dia após o outro, com bravura e autocontrole, praticar atos justos.






Comentários